Como Robert Clements da MMC salvou o mercado de seguro de Responsabilidade Civil e mudou para sempre a forma de segurar riscos de Cauda Longa!

  • 05 de Julho de 2025

No iníco da década de 1980, o mercado global de Seguro de Responsabilidade Civil (Liability Insurance – LI) enfrentou uma tempestade perfeita. Sinistros relacionados a amianto, talidomida, implantes de silicone, poluição ambiental e outros riscos de cauda longa começaram a surgir em volumes e valores sem precedentes. Muitas dessas ações judiciais foram movidas décadas após o vencimento das apólices originais — uma falha estrutural da cobertura na modalidade Occurrence Basis (por ocorrência), na qual a seguradora é responsável pelo evento mesmo que a reclamação seja feita muito tempo depois do término da vigência.

Nos Estados Unidos, algumas indenizações envolviam apólices emitidas na década de 1930. Juízes interpretavam amplamente as obrigações das seguradoras, abrangendo períodos de cobertura remotos, e as provisões técnicas simplesmente não haviam sido calculadas para essa realidade. O resultado foi um colapso da capacidade: resseguradores globais se retiraram do mercado, especialmente no segmento de Excess Liability, onde o impacto financeiro foi devastador.

Foi nesse contexto que Robert Clements, então presidente da Marsh & McLennan, percebeu que não se tratava apenas de uma crise cíclica — mas de uma falha estrutural no modelo de subscrição. Clements, junto com outros executivos visionários, fundou a ACE (American Casualty Excess) como uma resposta emergencial, oferecendo nova capacidade a clientes corporativos em um momento de forte retração.

Enquanto isso, no Lloyd’s de Londres, a situação piorava. Muitos subscritores entraram no segmento de Excess Liability sem real experiência na área. Os sindicatos retrocediam riscos entre si no chamado London Market Excess of Loss spiral (LMX), no qual as mesmas responsabilidades circulavam dentro de um pequeno grupo de participantes, concentrando em vez de dispersar riscos. A prática gerava comissões a cada operação de resseguro e retrocessão, mas também mascarava a real exposição.

A combinação de informações fragmentadas, taxas subavaliadas nas camadas mais altas e a transferência oportunista de riscos (“lixo” para sindicatos mais fracos e riscos “bons” para “baby syndicates” recém-criados) criou uma bomba-relógio. Quando eventos catastróficos coincidiram com ondas de ações de amianto e poluição, o Lloyd’s enfrentou cinco anos consecutivos de perdas sem precedentes. O resultado foi a reestruturação radical em 1993, com a criação da Equitas, a entrada de capital corporativo e, anos depois, a regulação externa pela Financial Services Authority (FSA), a CVM inglesa.

Foi nesse turbilhão de crises que o mercado percebeu que o modelo Occurrence Basis era insustentável para riscos de cauda longa. Clements e outros defensores da mudança impulsionaram a crescente adoção da modalidade Claims Made Basis (por reclamação), na qual a cobertura é acionada apenas para sinistros reclamados durante a vigência da apólice. Essa mudança trouxe previsibilidade, limitou a exposição retroativa e permitiu provisões mais realistas — restaurando a capacidade do mercado e salvando o segmento de Responsabilidade Civil de um colapso prolongado.

A transição não ocorreu sem resistência: advogados, segurados e até alguns participantes do mercado viam a Claims Made como uma redução de proteção. Mas a experiência da década de 1980 mostrou que a alternativa seria a implosão do sistema. Hoje, a coexistência dos modelos Occurrence e Claims Made é parte central da engenharia de riscos de Responsabilidade Civil, e o papel de Clements nesse reposicionamento estratégico permanece como um dos capítulos mais relevantes da história recente do seguro.