Mercado de Seguro Cibernético caminha para crescimento acelerado em meio à explosão de ataques impulsionados por IA

  • 23 de Agosto de 2025

A IA REDUZINDO A BARREIRA DE ENTRADA PARA O CRIME

A IA está reduzindo a barreira de entrada para se tornar um cibercriminoso. De malware autônomo a deepfakes e ransomware-as-a-service, ficou mais fácil entrar no jogo. Antes, você precisava aprender tudo sozinho. Agora, pode terceirizar, e isso aumentou a frequência de ataques. Mesmo que os valores pagos sejam menores, eles ocorrem com mais frequência porque é mais simples começar.

O desafio para as seguradoras é adaptar continuamente as apólices a esses riscos em evolução. Um exemplo é o data poisoning (envenenamento de dados), em que criminosos corrompem bases usadas para treinar modelos de IA, manipulando seus resultados. À medida que empresas criam sistemas de IA próprios para pesquisa, transcrição e outras tarefas, esses ataques podem ter grande impacto nos negócios.

Além disso, os riscos ligados à criação e implementação de IA ainda não estão claramente contemplados nas apólices atuais. Golpes cometidos com uso de IA são, em geral, cobertos, mas responsabilidades decorrentes de vieses algorítmicos ou “alucinações” de modelos não costumam estar previstas.

RESPOSTAS DAS SEGURADORAS

Com a maturidade crescente do mercado de seguros cibernéticos, seguradoras vêm padronizando a redação das apólices. Ainda há diferenciação em sub-limites, exclusões e coberturas adicionais, mas o “núcleo” das condições tornou-se mais uniforme. Isso facilita a comparação para clientes, mas dificulta a diferenciação entre seguradoras.

Apesar disso, ainda há grande inconsistência entre companhias, principalmente na regulação de sinistros e precificação. Isso causa volatilidade: riscos semelhantes podem ter prêmios e termos bem diferentes dependendo da seguradora.

Para enfrentar as novas ameaças, muitas companhias estão oferecendo recursos preventivos como treinamentos, avaliações de risco, acesso a ferramentas de segurança e até serviços de EDR/MDR gratuitos ou com desconto (EDR - detecção e resposta de endpoint e a MDR - detecção e resposta gerenciada) são soluções projetadas para ajudar a melhorar a postura de segurança de uma organização por meio do uso de tecnologias de segurança avançadas.

Essa pressão das seguradoras tem levado empresas a adotar práticas mínimas de higiene digital e controles de segurança como condição para obter cobertura — o que, por sua vez, vem elevando a maturidade geral das organizações em cibersegurança.

SINISTROS, REGULAÇÕES E LIÇÕES PARA OS CORRETORES

Em 2025/2026, espera-se que os sinistros de grande severidade aumentem, especialmente em incidentes envolvendo fornecedores terceirizados, cujo efeito em cadeia pode atingir múltiplos segurados ao mesmo tempo.

Outro ponto crítico é o risco regulatório: leis de proteção de dados mais rígidas aumentam as multas e processos coletivos após incidentes de privacidade.

Para corretores, o recado é claro: precisam atuar como consultores estratégicos, ajudando clientes a avaliar sua prontidão organizacional, reforçar controles básicos, como MFA (Multi Fator de Autenticação) e backups, elaborar planos de resposta a incidentes e compreender os limites de suas apólices.

A mensagem central é: cibersegurança não é um estado estático, mas um processo contínuo de adaptação.

OLHANDO PARA O FUTURO

A IA se mostra uma faca de dois gumes: pode melhorar a defesa cibernética, mas também potencializa ataques em escala. Plataformas como ransomware-as-a-service e instabilidades geopolíticas devem intensificar riscos.

Os principais ataques ainda têm motivação financeira — ransomware, extorsão de dados e fraudes por e-mail corporativo — mas agora ampliados pelo poder da IA.

Apesar da alta frequência e severidade dos sinistros, o mercado hoje é favorável ao comprador, com excesso de capacidade mantendo condições mais competitivas.

Agora, mais do que nunca, é importante que os corretores de seguros trabalhem com especialistas experientes em cyber, porque este risco que está em constante evolução é muito diferente dos riscos tradicionais

Situação no Brasil

O mercado brasileiro de seguro cibernético segue a tendência de crescimento observada no cenário global, mas com características próprias. O faturamento cresceu mais de 475% nos últimos cinco anos, alcançando aproximadamente R$ 240 milhões em prêmios anuais em 2024. Apenas no primeiro semestre de 2024, o volume arrecadado foi 512% superior ao registrado no mesmo período de 2020.

Apesar do crescimento expressivo do seguro cibernético no Brasil, a proteção ainda cobre apenas uma pequena parte do problema. Em 2024, as perdas causadas por ataques digitais — como fraudes financeiras, invasões de sistemas, vazamentos de dados e ransomware — ultrapassaram R$ 2 trilhões (nem todos os eventos estariam cobertos por um seguro e esse número inclui PFs). No mesmo período, a arrecadação em seguros cresceu apenas 12% (houve fuga de capacidade em função da alta sinistralidade), o que mostra uma discrepância enorme. Isso significa que a maior parte dos prejuízos não está segurada. Enquanto grandes empresas já contratam apólices, pequenas e médias, que também sofrem com golpes e transferências bancárias fraudulentas, permanecem descobertas. O resultado é um vazio de proteção bilionário.

O mercado brasileiro ainda é dominado por grandes empresas, que possuem maior maturidade em gestão de riscos e capacidade financeira para contratar apólices. Já as pequenas e médias empresas enfrentam barreiras como custo elevado, dificuldade de compreensão das coberturas e falta de suporte especializado.

Setores como financeiro, saúde e tecnologia estão entre os principais contratantes, devido à criticidade das informações que manipulam e à frequência dos ataques. O setor de saúde, em especial, se tornou um dos mais visados, em função do grande volume de dados pessoais e da dependência de sistemas digitais para operação.

A expectativa é de que o seguro cibernético no Brasil siga em trajetória de crescimento, impulsionado pela intensificação dos ataques e pela necessidade crescente de conformidade regulatória e resiliência digital. Entretanto, será necessário avançar em educação sobre riscos, simplificação de produtos e maior acessibilidade para pequenas e médias empresas, sob pena de deixar uma ampla parcela da economia vulnerável a incidentes de grande impacto.